Esse capítulo tava guardado há pelo menos uns dois anos.

Em Marechal Olívio vive Dolores, e ela é a “Louca da Cidade”. Dizem que ela ficou assim porque “matara” o pai, Seu Vladimir, que dela abusava quando mais nova. Foi-se o desgraçado para os Infernos de ataque cardíaco num desses momentos em que violentava a jovem Lola.

Ela, que sempre fora muito bonita quando jovem, hoje é uma mulher castigada pelo tempo, pela insanidade, pela vida. Quase não fala e quando o faz na maior parte das vezes é para chamar pela mãe, que morrera antes do pai. É dependente da caridade alheia, da Previdência Social e o Serviço de Saúde da Cidade. Não tem mais ninguém.

Dizem que Dolores não é violenta, portanto, deixam-na circular pela cidade. Mas a única coisa que ela faz é ficar durante todo o dia sentada na praça em frente ao sanatório, vestida como se vestia enquanto mais nova – vestido estampado, sapatinho “tipo de boneca”, meia três quartos; cabelo até os ombros, partido ao meio e trançado. E dessa indumentária ela não abre mão. Às vezes ela chora um choro muito sentido – novamente quando a lembrança da mãe vem à tona. Mas quando falam o nome do pai – seja para ela ou mesmo perto dela – D. Dolores sorri.

Sorri e se começa a se insinuar, para toda e qualquer pessoa, livremente, contagiando o ar da cidade com sua insanidade transformada em lascívia – cena essa de uma crueza e de uma crueldade chocantes. Depois, volta para seu universo onde alterna lágrimas e apatia. Age assim como se fizesse algo para matar novamente ou (manter bem mortas) as monstruosas e tristes memórias de juventude. Ou talvez para celebrar sua vitória. Ou por loucura somente. Vai saber…

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