As Horas que Passei Contigo

O Vermelho do céu e o trovão. Você é todas as horas que passei contigo.
E isso é um poema; não, um livro vivo transpirado deles…
Eu apenas escrevo, mas você
– Você –
É a experiência do tempo e das coisas no tempo,
As próprias coisas,
O próprio tempo da poesia das coisas que experimento.
Então eu escrevo todas as horas que passei contigo.
Eu me inscrevo em você nas experiências, nas coisas, no tempo. Eu escrevo.

Eu escrevo os minutos de silêncio. As mãos com sono na foto.
Escrevo ciúmes, por alguns segundos. O presente.
O presente que dera a meu pai, para sempre.
O volume da ausência e das coincidências
Nas órbitas descaminhadas dos relógios sem pálpebras
A me lembrar que pessoas pegavam vôo enquanto eu estava
Há horas, a três dedos do chão. Antes engatinhava lambendo-te o ventre.
E te mostrava poemas secretos. Segredos seus. Sentidos nossos
Nas curvas, nos pulsos e nos decúbitos de quem se deita com tempo,
Por horas e horas que passei tatuando eras, fazendo amor e sentido.

Sentindo tudo,
Poesia você e todas as horas que passei contigo.
Horas de amanhecer, de esquecimento, de mortes, de conta-giros,
Clepsidra que é a torneira da pia,
Contando-me a hora em que senti que passeei contigo. Até aporta.
Nessa hora você não sabia, mas
Éramos eu e as horas, quando eu e você.
Foi então que eu sorri o sorriso dos gatos e
Senti um dia de cada vez. Todos até hoje. Tudo.
Inclusive as horas que passei contigo.