A Raposa mora em Marechal Olívio. Não numa casa, mas numa toca no meio do mato, num parque ecológico nos arredores da cidade. Depois dos últimos eventos vividos à beira da macieira e perto do roseiral –  onde era sua antiga morada – ela resolveu se mudar. Os campos de trigo lhe traziam lembranças tristes…

Agora ela não vive mais sozinha. Arrumou alguém, numa dessas saídas para caçar galinhas. É tratada com carinho e respeito e hoje em dia leva uma vida boa; nem se expõe mais aos caçadores! Tem meio que de tudo ali ao alcance da mão e envelhece com dignidade.

Mas ás vezes enche a cara de Martini e fica olhando pro céu pensando que poderia ter pegado mais leve com aquele Príncipe… ou que poderia tê-lo demovido de voltar praquela biscate da Rosa e que assim ficariam juntos. Às vezes ela se lembra do essencial e compreende que a máxima do “invisível aos olhos” vale para tudo, inclusive para a saudade. A saudade é uma coisa essencial… e assim como todas as outras coisas essenciais, com o tempo e os ritos, a coisa só fica mais e mais forte, mais e mais intensa.

“Como gostaria que você estivesse aqui agora, seu Loirinho filha da puta.”, resmunga baixinho a Raposa, quando fica bêbada.

Dá dó de ver. Se alguém tiver notícia do Príncipe, fala pra ele mandar notícias, de repente até fazer uma visita.

Ontem eu passei pelos lugares que costumava xingar
Quando sentia raiva de você
E eles me abraçaram.

Ontem eu fui dormir muito tarde (se é que dormi)
E a noite, muda, me fez companhia,
Teve dó de mim.

Ontem eu vi somente teus pés, de longe,
Talvez te fazendo ir embora,
E me senti muito só.

Ontem eu senti muito, muito medo
E também desespero num choro
Sem lágrimas.

Ontem eu só pedi mais um dia, um dia a mais
Que seja, um dia a menos rumo ao fim
Desse sofrimento.

A grande ironia
É a gente achar
Que tem (o) tempo.