Intermitentes
Que somos, estamos
Na dança das distâncias
Perante o amor e a indiferença,
Na culpa e no mérito,
Pelo amanhã e o ontem,
De você e eu.

Separados, mas perto
O bastante pra pensar e sentir
Nas diástoles, sístoles,
Percussões de almas e carnes
Que não mais dialogam,
Mas que fazem dueto
Em nossos calores e frios.

Uníssomos dís-pares
Em um só lugar
Desse multiuniverso:
Todos, nenhum;
No espelho um do outro, é o outro.
Dois do mesmo e
O mesmo de dois.

Isso Existe

Isso é o que te faz dormir
Para sonhar com algo que, acordado,
Está logo ali, posto e vívido.
E enxergar no vento
O movimento dos vivos e
Também dos vitrais.

E não é aquilo, nem outra coisa.

É uma paleta de cores
Sonoroníricas.
Vai além.

Almas de distâncias titânicas
E de infinitas dimensões
No embate entre o Medo e a Culpa,
Behemoth e Leviatã no onde se forma
O caráter ferido dos homens –
Esses Golens de carne e memórias –
Vestindo esse colar corolário de frustrações. E mágoas.

Diálogo na Farmácia Central, em Marechal Olívio:

“Bom dia.”

“Bom dia, senhor… pois não?”

“Então, acabei de me casar novamente e agrora estou aqui. Agora estou aqui a comprar ‘azulzinho’ e remédio pra angina. Você tem ‘o remédio tal’?

“Tem sim. O total dá $132,99, senhor.”

“Ok, aceita cartão de débito?”

“Sim, sim.”

“Aqui está.”

“Mais alguma coisa, senhor?”

“Sim, tem mais uma coisa: Amar é correr contra o tempo. Como tudo na nossa vida, pensamentos, sensações, sentimentos, chegam até nós na forma de um complexo emaranhado de ações e reações de natureza química. E dada a natureza fantástica de nosso organismo, temos a capacidade ímpar de nos tornarmos mais e mais resistentes, resistentes não, resilientes a praticamente todas essas reações, ou seja, com o tempo, fica orgânico pensar e sentir. Nos viciamos assim, em viver.
E quanto mais nos expomos a uma (ou mais de uma) dessas combinações químicas, passamos vagarosa e silenciosamente, a precisar de doses cada vez mais altas para que vivamos satisfeitos. Voos cada vez mais altos, pensamentos mais profundos, sentimentos mais intensos… e assim o é com o amor, meu caro. Quando um amor acaba, se desfaz nos metabolismos, o próximo precisa ser maior, mais forte e mais duradouro. Porque como toda dependência, a falta de amor é uma doença terrível – que enlouquece, nos despessoaliza e nos mata. É a pior de todas as abstinências.
Por isso, precisamos de um amor ‘para a vida inteira’. É necessário para sermos plenamente felizes que recebamos uma dose de amor tão grande, tão absurdamente poderosa, que nos permita morrer antes que a ‘viagem’ passe. E por isso só vale a pena e só é possível se entregar a um amor se, e somente se, o fazemos como se fosse a última dose – a definitiva – mesmo que não seja de fato. E assim de novo e de novo… até que acertemos; até o fim.”

– silêncio –

“O senhor faz isso de sacanagem, né Seu Honório? Casado com uma jovem (ele pensou ‘gostosa’, mas falou ‘jovem’) 30 anos mais nova que o senhor e aí recalmando da vida… quem dera fosse eu numa dessas..!”

“Acho que você está começando a entender, meu filho; a ideia é essa. Tchau, bom dia.”

“É, bom dia…”

– resmungando, diz Cesário, o balconista –

“Velho doido do caralho. O que ela viu nele? Ah, se fosse eu…”