Dos Telhados me Brado…

viver sempre é enxergar e admitir
a violência que mora em uma alma, com suas intensidades, e suas arestas afiadas.
Como se enviassem mensagens em garrafas, só que do alto dos prédios…
lá vão elas, espalhando os cacos de vidro como se fossem tiros,
enquanto as palavras que precisavam ser lidas perdem-se
no caos e no sangue das vítimas de seus desastres.

por isso o amor pode ser uma solidão constrangedora; preso numa jaula de ar e alturas,
onde uma parte de si julga ser melhor dessa forma.
Mas ora, vamos lá… Quem é você? Difícil questão, vertiginosa é
a paisagem que responde a isso. Acrofobia.

Eu,
do alto das torres de aço e concreto, esse sou eu,
nos olhos injetados de paixão, ou ódio, ou medo,
nos orgasmos e nos pesadelos, e é impossível se preparar para mim,
Mas às vezes eu aconteço.

um tipo de espasmo, um soco na cara ou uma obra de arte. nós acontecemos
uns para os outros com a brutalidade dos acidentes, e a beleza de se ver a cidade do alto,
na borda de algo que é bonito, mas que pode matar.

“Certa vez eu tive uma semana que simplesmente passou. Não foi dura, nem tranquila; sem desgastes, sem nada. E esse foi o tempo em que me senti mais sozinho em toda minha vida. Os seres humanos são – por si e pelos outros – agentes, vetores e resultados de constantes tensões, fricções e, eventualmente, quedas livres. A vida ávida.

Sozinhos, nós somos nós num deserto feito de areia que é todo esse frenesi, são todas as emoções do mundo. E tem gente que segura um punhadinho dessa areia na mão e acha que isso lhe pertence. A mesma gente que sofre vendo essa areia voltar pro seu lugar, enquanto se esvai entre os dedos. É gente que não vê que o quanto ela mesma é o deserto. Dessa areia só fica mesmo a que quer ficar. A que as tempestades e os ventos leves colocam nas ranhuras dos nossos rostos, entre os cabelos, nos nossos bolsos e dentro de nós. O todo – nesse caso, o resto – é inóspita paisagem, miragem; é o que te mata de sede e de fome, de calor e de frio e onde as víboras e os escorpiões moram.

Juntos, somos oásis. Nem sempre de água boa para o que carecemos naquela hora. Às vezes um rio de onde se erguerá uma civilização.

Fora isso, achei que foi impedimento, mas segui com o lance. Quem dá o gol é o juiz.”

Assim falou Zaratustra, ponta esquerda do XV de Marechal Olívio, em entrevista para a rádio local, após a partida de domingo.