Dificil

Não leia isto.
Sob pena de sentir
A ironia queimar
O veludo da língua!

E você continua lendo, não é?
O gosto é bom, o gosto é bom…

NOTA: Isso sou eu, sem dormir, tentando postar do celular… *risos*.

Sobre Passagens do Tempo

Nos últimos dias tenho pensado muito em como o tempo passa. Posso dizer que, em termos físicos, o tempo é isso que a gente conta, contabiliza, capitaliza nos bolsos e nos relógios.  Pra alguns quanto mais tempo melhor, para outros quanto menos se gastar desse tempo é o que funciona, mas invarialvelmente ele passa pelas horas minutos e segundos de cada dia, de cada mês e de cada ano… novidade nenhuma nisso – isso inclusive não deveria tomar o tempo do pensamento de ninguém.
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Pois então,  não é nesse tempo que tenho prendido tanto minha atenção.  É num outro, aliás, num é nem no tempo, é numa outra coisa – em outras passagens do tempo. É algo próximo àquela sensação de encontrar – ou melhor, de se dar conta –  de seu primeiro cabelo branco. É algo parecido com isso, mas ainda não é bem isso.  Parece também com aquelas coisas que as pessoas dizem quando descobrem por si mesmas que não curtem mais certas coisas, lugares e/ou pessoas que curtia há tempos atrás. Envelhecer é uma passagem do tempo, mas eu estou falando de outras.
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Tenho pensado em como é olhar para sua mãe, ou seu pai, ou outra pessoa afetivamente importante, icônica em sua vida num tempo passado e hoje, de repente, enxergar nela simplesmente um homem ou uma mulher;  que sentem medo, erram e às vezes tem de pedir desculpas. É preciso o tempo passar para que sejamos capazes de nos dar conta dessas minúcias tão óbvias, mas que a urgência de um colo, de um peito, de uma atenção ou de uma rejeição a gente deixa pra lá, desconsidera. Abandonar o medo do escuro, o medo de pegar na mão (ou de largar a mão também) de quem a gente gosta ou o de acompanhar uma outra pessoa num constrangimento necessário requer uma boa dose de passagem do tempo.
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Ainda hoje me lembro como eu me sentia quando pegava a navalha para barbear meu avô que, já completamente cego por conta da diabetes, sentava-se à minha frente e falava de futebol; mas só nesses dias é que eu me dei conta do quanto havia de medo e coragem nisso, para ambos os homens ali. Para o velho e o novo dentro de cada um.
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E esses pensamentos me levaram a outra passagem do tempo: a que nos conduz ao se alegrar ou se entristecer com bobagens. Só uma boa passagem de tempo faz a gente perceber que não precisamos de nada muito apoteótico pra ficarmos tristes ou alegres. Outra coisa: algo apoteótico é raro e a gente só percebe isso quando o tempo passa e não há nada mais apoteótico na vida do que uma saudade verdadeira.
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Provavelmente existem outros lugares, outras passagens do tempo aonde eu ainda não cheguei.  Talvez existam tantas outras que eu nem dê conta de chegar a todas elas. Mas isso não é o importante. O importante é que nesses últimos dias o tempo tem me dito muita coisa e eu resolvi escrever sobre isso.

Ratos

A solidão desa cidade, dessas ruas

Que tantas vezes já me atropelaram
Com a força de todos os seus asfaltos.
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A poeira, o pó, as cinzas, o cinza,
O nada de placas e dos letreiros
De ‘Não há Vagas’ nem abraços.
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O silêncio das luzes frias nos postes
As bocas-de-lobo, mudas; o lixo,
E eu enquanto volto pra casa.
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De vivo mesmo, tem os ratos.