Inspiraes

Arrepios causados por pés de seda

Trincando o concreto de campos elísios,

Libertando aparições que me assombram

E velam por mim.

 

Sonho, febre, maldição e intumescências.

Como uma polução, da alma, noturna,

Novamente a Lira vem,

E eu A quero.

 

Sonetos Morbidos I

Acordo com a revoada muda

Da barra de tuas vestes brancas

Que brisa meu rosto e me traz

De volta do mundo dos sonhos.

 

Me resta lembrar de seus passos

E os pássaros de origami

Que velaram meu sono e agora

Se dobram com minha chegada.

 

Perdido nos cortes do tempo,

Me escondi no plissado das horas,

No sono, nos sonhos, vivi

 

Onde posso te ver novamente

Vestida de noiva e ainda

Sem as marcas do envenenamento.

 

Eu publiquei esse texto primeiramente no Facebook, porque o servidor daqui estava fora do ar. Agora que (parece que) voltou a funcionar normalmente, republico-o! 😉

 

CRÔNICA DO PRIMEIRO DE ABRIL

 

 

Depois de uma jogatina honesta com uns amigos, cheguei em casa depois da meia-noite de ontem para hoje. Como estava sem sono, resolvi, movido pelo vício, acessar a internet e me deparei com um e-mail totalmente estranho numa das listas que assino, informando a “aposentadoria” de um colega de carteado. De início fiquei chateado, mas aí uma coisa me veio à tona: a data do e-mail. Quarenta e sete minutos do dia primeiro de abril, “dia da mentira”. Para mim, o dia que pode ferrar a sua vida.

 

Não gosto do primeiro de abril. Esse desgosto não é, definitivamente, por conta de uma mudança de calendário em tempos já há muito idos; ela tem outra origem. O dia da mentira pode desencadear uma série de eventos difíceis de lidar e até mesmo impossíveis de serem contornados na vida de uma pessoa. Tudo isso pelo simples fato de que o mundo no qual vivemos é povoado por seres cuja capacidade de discernimento entre a piada de salão e o bullying é mínima, ou mesmo nula, em estados de exceção à uma determinada regra – nós, os humanos. No caso do dia da mentira, a regra é dizer a verdade, ou brincar com a verdade. E aí lembremo-nos da antiga máxima: TODA brincadeira tem, lá no fundo, uma verdade escondida, e o primeiro de abril tende a transformar essa verdade numa coisa lacerante, de difícil absorção. A verdade do rir para não chorar.

 

Em primeiro lugar, porque fica difícil se comunicar nesse dia. É praticamente uma lei da física que “toda notícia séria fica automaticamente jocosa e só volta a ser séria mediante leve constrangimento em primeiro de abril”. Exemplo: “Fulano morreu”. Agora, esse constrangimento pode atingir o nível moderado se a notícia séria for uma brincadeira de primeiro de abril. Prosseguindo com o exemplo acima: um sujeito diz, mentindo,”Fulano morreu” para outro; o outro não se atenta para o fato de que é primeiro de abril e desaba a chorar; Leve constrangimento, constrangimento moderado; Sujeito engraçadinho, já sem graça, diz “Calma, calma… é primeiro de abril…êêê…”.

 

Com base nessa “lei”, podemos pensar outra coisa. Existem certas frases que deveriam ser completamente vetadas no que se refere a virem acompanhadas da exclamação “Primeiro de abril (êêêêêê)!”. Por exemplo, “Estou grávida.”. E por que? Não pela piada, definitivamente, mas sim porque de repente, você, mulher em idade fértil e sexualmente ativa, pode escutar de seu parceiro algo do tipo “E aí, você já contou para o pai?” Esse é o tipo da brincadeira que dá problema. Qualquer resposta que a fulana der para a pergunta de seu parceiro vai gerar um certo “barulho”. Se ela fala que está contando agora, ela pensa “o que ele quis dizer com essa pergunta? Ele está sugerindo que eu não lhe sou fiel, ou que eu não transpareço confiança?”. Agora, se ela responde “Ainda não, você me ajuda?” Ele pensa “o que será que ela quis dizer com essa pergunta? Não que ela esteja me traindo, mas será que ela anda ‘olhando para o lado’ por aí?”! Como eu disse, “barulho” e algumas discussões para além do primeiro de abril.

 

Mas “Estou grávida.”, nessas condições, ainda é leve. Tem uma frase pior: “Eu te amo.”. A pessoa que diz que ama outra e logo depois emenda o bordão “Primeiro de abril (êêêêêê)!”, para mim, já fez por merecer uma surra, mesmo antes de qualquer resposta. Mas o castigo pode ultrapassar a fronteira do corpo e se estender por várias áreas da vida do engraçadinho, por exemplo se a resposta for “Eu também te amo.” acompanhada de um rosto de consternação, constrangimento e vergonha por parte da outra pessoa, sucedida de um expressão de frescor e alívio após a revelação da brincadeira. E aí? Precisa traduzir a cena? É o tipo da coisa que, se acontece de um cara para uma mulher, é melhor ele colocar as barbas de molho se ela fizer a brincadeira do “Estou grávida!”… Mas pode piorar. Como a comunicação entre nós e os sentimentos alheios é geralmente um amontoado de mensagens que enviamos a um receptor quebrado, o que mais acontece, é se fazer essa brincadeira sacana e perversa com alguém que ama o engraçadinho, mas ele, obviamente, não sabe disso! Essa é outra cena que não carece de tradução, até mesmo porque nossa imaginação se preocupa nesse caso em tratar com mais crueldade o desenrolar da cena, as consequências dessa presepada, e então a gente ri. E só faz isso porque não foi nem comigo, nem com você (seja como sujeito ou como objeto da “brincadeira” – porque é ruim de qualquer forma), e nessa hora a gente morre de medo. Como eu disse, o dia da mentira é o dia que pode ferrar sua vida.

 

Mas esse dia pode ser ainda pior. Nos dois exemplos acima acontece que você se estrepa num primeiro de abril, aprende lição e não participa nunca mais dessa falta de juízo. Agora, imagina se você nasceu no dia da mentira. Primeiro o trabalho que deu para fazer o mundo acreditar que você nasceu (isso entra no rol das notícias sérias que viram piada e que só voltam a serem sérias depois de um leve constrangimento). Depois, imagina o sofrimento de você criança, em todas as suas festas de aniversário enquanto criança, ouvindo que não vai ter festa, ou que não vai ter bolo, ou que ninguém trouxe presente?! Que tipo de adolescente você se tornaria? Suponhamos que na natural revolta dos tempos juvenis, você optasse por não mais celebrar com parentes e resolvesse “cantar o parabéns” só entre amigos. Você acha mesmo que outros adolescentes iriam perder a oportunidade de te sacanear? Depois de anos sendo sacaneado por sua própria estirpe? Mais fácil você marcar uma festa e não fazer nada, só mandar um recadinho pra todo mundo escrito “Primeiro de abril (êêêêêê)!”… e aí todo mundo se sente ferido no ego, não te sacaneia mais, mas também deixa de ser seu amigo e passa a te olhar como um cara a ser vencido. Resultado: um longo período de bullying trocado – que deveria não doer, mais dói. E aí então fica você sem festa de aniversário e sem amigos.

 

Diante disso, que tipo de sentimento você alimentaria por sua família, aliás pela pessoas? A pergunta é: que chance você teria em se tornar um ser humano psicologicamente saudável se nascesse em primeiro de abril? Pois é, tem gente que nasce. Tem um monte nascendo agora. O dia da mentira torna o mundo um lugar pior (e de repente, até mais perigoso, vai saber, não é mesmo?).

 

É por esses e por outros tantos motivos que eu resolvi escrever essa crônica em tom de manifesto. A ideia sempre foi, desde o começo chamar a sua atenção durante alguns minutos e fazer você perder tempo com todo esse drama, no intuito de te fazer acreditar que eu não me divirto no dia de hoje e que não ia pegar você no primeiro de abril. Só que eu acredito tê-o feito com o mínimo de decoro. “Primeiro de abril (êêêêêê)!”

 

Pedro Pizelli