Em algum momento da festa
Numa das horas da vida
Nós desdizemos o amor,
Dizemos adeus,
E agora perdidos voltamos pra casa,
Desiguais e com medo.

Nessas nossas ausências,
Assim Ulisses sem Penélope,
Irreconhecíveis, ilhados e milhas
Distantes, mas sem chegar
Ou se desfazer de nada
Enquanto se espera,
Porque não há espera. Acabou.

Na sequencia de erros, erramos, então,
Dividindo a distância, no refrão do silêncio.
Como muitas vezes, para tantos outros –
Outros como nós;
Como nós desatados.

SMS

Sua mensagem diz:
“Estou em minha casa,
Penso em ir pro centro.
Tenho febre. Beijo!”

Mas eu só leio assim:
“Estou no centro da febre,
Penso em ir pro beijo.
Tenho minha casa!”

Por isso minha resposta
É sim, e somente sim.

Amarelo

Estava o homem que morria de medo de voar a conversar com um amigo, à beira-mar. Lá pelas tantas do dia,  surgiu para eles a oportunidade de participarem de um passeio de barco, onde do pacote fazia parte também um mergulho a uma certa profundidade. A princípio o amigo relutou, mas fora enfim converncido pelo homem que, animado com o passeio,  já tratava de colocar em si todo o equipamento de mergulho.

Passearam então a bordo de uma escuna até uma região mais afastada da praia, onde o tal mergulho seria realizado. Uma vez checadas as normas de segurança, caíram instrutores, guias e todos os outros na água – menos o amigo.  Relutante, ele sentou-se na borda da embarcação e, ansioso, chamou a atenção do homem com um gesto, que não lhe respondeu, pois não vira. Prontamente um dos instrutores tratou de dar-lhe logo um aceno, convidando-o para a água apontando uma bóia. Agora com sua atenção desperta no sentido do amigo, o homem logo tratou de colocar-se ao lado da bóia e sorriu-lhe.

E assim seguiu o passeio. O amigo agarrado à bóia, o homem ao lado do amigo e o instrutor lá, meio que sem entender, entendendo tudo. No fim do passeio, o homem sentiu cãimbras e saiu da água. Voltando ao barco, pôde ver o amigo e sua bóia separarem-se finalmente – gesto de coragem que fora reconpensado com a observação de um peixe amarelo belíssimo e raro.  Voltaram todos, emfim para a escuna e dela para a praia. O resto do dia transcorreu bem.

À noite, antes de dormir, conversaram os dois sobre o dia e então, questionado sobre o acontecido na praia (o passeio de barco com o mergulho), o amigo respondeu com veemência: “Não sei nadar, camarada! Por isso fiquei agarrado à bóia. Tive medo. Nunca mais faço mergulho de novo…” “Mas você pôde, com ajuda do instrutor, mesmo que por alguns instantes, largar mão da bóia, megulhar e ver o peixe lá, num foi? E aí você viu o quanto é ruim e desconfortável ficar agarrado à uma bóia morrendo de medo? E sem a bóia é livre, não é? Outra coisa, sem medo..?”, replicou o homem. “É foi sim…”. “Pois então agora você entende porque eu não gosto de avião!”, finalizou o homem, sorrindo.

Foram dormir e nessa noite o homem sonhou com um peixe amarelo voando no céu. Sem bóia, nem nada.