Já não cabe mais em mim meu peito,
Nem nas páginas dos cadernos,
(Nem dos livros),
Nem nas ruas das cidades,
(Ou nos edifícios),
Muito menos em minhas lágrimas,
(Ou em meus gritos),
As saudades. E elas hão demais.

E ainda hoje você vive, Princesa,
Procurando príncipes e engolindo sapos.
E de tão enferrujada, a altivez de
Tua coroa te castiga, machuca,
Mas lá está você, Donzela
Bela e adormecida em sonhos frouxos,
Imateriais como suspiros de recalque,
A exigir da vida o que dela rejeita. Viver.

Só que  ninguém mais te vela o sono, Princesa,
Ninguém conta tua história mais,
Ninguém vai te salvar.
O final, feliz, já passou a galope,
Teu castelo hoje são só ruínas,
E o bem, acredite, venceu.
Porque a bruxa malvada e egoísta, Princesa,
Sempre foi você. Você.

Dizia assim o obituário: “Morreu hoje Fulano,
De novo, e dessa vez para sempre,
Lá pelas tantas,
De múltiplas fraturas na alma.”

E completava o epitáfio: “Aos amores,
Digo que amei a todos,
Mesmo não sendo amado – e por isso jazi!
À vida, promessa: volto com melhor sorte.”

Não houveram canções, só uma mudez engasgada,
E não havia corpo a ser velado
Só um coração estraçalhado, desfeito.

Foi um funeral tão triste, tão triste,
Que a Natureza ficou enlutada
E transformou o Fulano no brilho dos olhos dos amantes.

Tudo começara mais ou menos aos catorze anos, quando esse sonho apareceu a ele pela primeira vez. Era um sonho com gosto e cheiro animal; muitos simbolismos – os quais a maioria, mais tarde, ele próprio faria questão de atribuir-lhes novos sentidos de forma bem particular. Em alguns momentos sua mãe aparecia no sonho. De forma automática, na medida em que outras mulheres começaram a passar por sua vida, foram as imagens delas sendo agregadas ao sonho original a partir desse ponto – o “ponto da mãe” – em diante. Acordava sempre mergulhado num misto de satisfação e nojo toda vez que sonhava esse sonho.

Para a  sociedade era uma pessoa sem  cor. Tinha tornado-se extremamente tímido (em certa parte por conta desse maldito sonho) e agora, alguns anos mais velho, sentia que algo em sua vida havia passado e ele ficara pra trás, dentro de seus devaneios. Dentro de sua cabeça, martelava-lhe, além do sonho, uma vontade gigantesca de extravasar, de externalizar tudo o que entendia como amor, dedicação. Foi quando se apaixonou pela novata que viera lhe servir café na lanchonete que frequentava. Ele passou meses a observá-la. Trocaram de forma tímida algumas palavras e, para se preservar, mentira sobre si mesmo. Descobrira algumas coisas sobre a vida dela e, certa noite, a abordou na rua de forma cortez. Ele tinha certeza que era o certo a fazer. A convidou educadamente para uma conversa em local mais íntimo, mas logo que encontraram-se sozinhos, desferiu sobre ela um golpe que automaticamente a fizera desfalecer.

Quando ela acordou, estava deitada em uma mesa, amordaçada e nua, com o braço  esquerdo amarrado às costas como um travesseiro no pescoço e o outro preso ao corpo com a mão livre junto às partes íntimas. À sua frente estava ele, depoistitando um cândido olhar sobre ela, com uma faca na mão. Também não resistiu ao corte longitudinal que lhe fizera na lateral desprotegida, por onde ele prentedia penetrá-la, espalhando seu sêmen junto ao coração de sua amada. E assim, dentre outras coisas, ele sentiu que dormiria bem. Acreditava que seu sonho ganhara uma materialidade tranquilizadora…

Contudo, antes de se livrar daquele inerte templo outrora vivo, presente e aberto em oração, ele se deu conta de algo que o impleiria a procurar se satisfazer, daquela forma, novamente: ele podia jurar que havia visto ela se tocar antes de morrer.

SOUNDTRACK PARA A LEITURA DESSE CONTO: “Desejo Louco”, de Fernando Mendes.  Abraço!

“O beijo, amigo, é a véspera do escárnio…”
(Augusto dos Anjos)

Nossa história é
Um futuro do pretérito
Conjugado em palavras de amizade sincera,
E duradoura,
Forjadas do aço de tuas contradições
E amoladas nas estruturas expostas
De um castelo de nuvens que sonhei sozinho,
Cujos escombros que me soterram
Hoje servem de palco,
Para sua Valsa do Adeus.