Outro dos mais antigos

Cavaleiro Negro

Quando o Sol abandona os campos
E a Lua ainda não sorri;
Sobre a Terra opaca, cortada pelo Vento,
No devir da Tarde-noite,
Ele acorda em Silêncio.

Se levanta e recusa, blasfema
Contra o que tem como Vida e sentença de Morte:
Vagar pelos lúgubres cômodos
De tua escura morada,
Observar as nervuras dos galhos secos
De árvores que se esqueceram das Primaveras,
Sussurrar uma antiga canção profana… sozinho.

Afia tua espada,
Veste a armadura,
E inflamado pelo cheiro de sangue de tuas Mágoas,
Sai
Rompendo as campinas,
Visitando túmulos, ruínas,
Chorando, gritando,
Dividindo aflições,
Espalhando medos…

Uma criatura de olhos e pele fria
Encurrala-me nos becos de uma cidade às sombras – é a noite.
Suas garras, brilhantes estrelas,
Afiam-se em minhas costas
Enquanto engulo asfalto.

Perseguido, dominado por esse animal que
Me sorve em dentadas de som e perfume,
Percebo que ele tem ânsia de mim,
Predar-me é perder-me
Nas experiências de tuas entranhas de sangue e barulho.

Resisto de pulsos e braços abertos
Mordo as barras de ferro que no horizonte enjaulam à besta
Que me olha dona de mim.
Finalmente pereço sem a sedução de tua mandíbula a amparar-me
E desejando o retorno da fera, a vida me vem de cabeça para baixo.

No teu sorriso de cera
Senti uma ingenuidade mórbida,
E em teus gestos pálidos
A ressurreição de teu crime,
E em teus olhos esquivos
A sombra de tua chaga,
E em teu corpo frio
A presença estrangeira,
E em teus desdenhosos ouvidos
Os gemidos, os gemidos…
E em tua voz de vertigem
Os prazeres alheios,
E em tua pele, velada,
O nojo da culpa,
E em teu maldito perfume
O ópio do medo.
Mas em tua boca,
Nada.
Eu não senti nada.
Porque abandonada de alma ela estava;
Longe, esquecida,  jazia.
Coração nunca houve.

Esse poema eu já tinha publicado no Facebook, aí resolvi transportar pra cá… =P

 

***

 

Rastejando o escuro espraiado, e teso
Com a língua colada nos azuis
De uma corda sem som
Eu escrevo uma estrela
Mais pesada que o Paraíso.
Nebulosa, e plúmbea, e densa
É a alma mergulhada no rio
Sem margens que escorre
Como nódoa dos pensamentos sem atmosfera.
Dimensões que se perdem
Dimensões que se perdem
Quedo livre de contornos do além.