É difícil contemplar a pobreza,
Dos remediados e bem validos,
Ante os meninos que esmolam, imploram,
Restos sujos que escorrem
De mãos engorduradas por velas
Acesas na Paz do Senhor,
Que se sente estuprada na alma
Daquelas senhoras que praticam
Uma caridade aleijada
Pela qual esperam alcançar o céu vomitando
O remorso nas mãos que pedem esperança
E qualquer outra coisa que se possa trocar
Pelo paraíso das pedras.

A tempestade novamente se aproxima.
Levarei comigo pingos de chuva e derrotas.
Nenhuma medalha,
Nenhum raio-de- sol,
Solitário me apago vencido e nu
Em meio ao temporal.
– Prefiro ele à indiferença dos semáforos transeuntes-
Um mendigo de chapéu vazio,
Que agradece a renúncia.

E então chove. Chove muito aqui dentro.

Bom Dia

Já não é mais madrugada
E abraçado pela garoa que apresenta-me o dia
Escrevo. Solto, incansável,
Ainda rememorando o gosto de vinho,
Partitura da valsa que foi
Nossa noite.

Aconchegados em edredons de carícias
Adornados por pétalas de sentimentos
Lilases como a aurora que nos graceja
Compartilhamos uma unidade intensa e leve.
Gotas de chuva são as lágrimas de nosso segredo.

Oceans

“É muito estranho como o ar daqui é diferente.”, Ella pensava, deitada – barriga para cima, pernas esticadas, olhar vazio. Ella sempre gostara do mar e de cidades costeiras mas só agora, aos vinte, que finalmente coneguira se mudar para uma. Três meses haviam se passado desde então e Ella ainda estranhava o cheiro da cidade, o cheiro de mar. Desde que se mudara, tantas coisas já haviam acontecido, mas dessas todas coisas nenhuma tivera tanta importância quanto poder sair pela cidade e deparar-se com o oceano. Os dias, as madrugadas, as tardes e tudo o mais ficara mais bonito à beira-mar para Ella.

Depois de se estabelecer na cidade, Ella até se propôs a teorizar, de forma simples, despretenciosa – e muito particular – sobre todos os porquês de tamanho fascínio. Leu algumas coisas, conversou com várias pessoas e, num dessas, concluiu que “O Oceano são muitos; depende de como vamos até ele e ele a nós”. Essa frase não saía mais de sua boca, muito menos de sua cabeça. Assim sendo, Ella estabeleceu para si que, uma vez por semana ela teria seu dia de mar. E cada dia seria diferente. Era essa a proposta.

E fora num dia desses de mar que Ella conheceu o amor. Mas não um amor trivial, do tipo que as ondas levam embora. Era muito mais que carne e sexo e falatório, ao contrário – era um prazer silencioso, passivo, mas de um intensidade avasaladora. E chamava-se Heroína. Ella sabia que para sustentar seu amor precisava continuar sua vida, trabalhar, mas como toda pessoa que ama, Ella carecia de mais e mais atenção, de cada vez mais uma dose a mais…de amor. E lá foi Ella. Sozinha com seu amor, para seus dois amores, pro seu dia de mar.

Quando a retiraram da água, ninguém percebeu, mas Ella estava não só molhada pela água do mar. Ella só ouvia o barulho das ondas, em sua cabeça, pedindo que ela sobrevivesse, que ela não fosse embora. E Ella morreu sonhando com o dia em que novamente seria possuida pelo mar.