Rapida cronica sobre o fim do mundo (porque vai que nao da tempo de publicar… ou que voce a leia…)

Me preocupei com essa coisa de Apocalipse. Não por conta da possibilidade do fim, mas por ter passado, ao longo de um ano, observando como nos comportamos diante dessa ideia enquanto sociedade e, dado isso, concluí algumas coisas.

A primeira delas é que a vida das pessoas anda tão mal vivida, vazia e sem sentido que chego a considerar que a humanidade ansiava pelo fim do mundo. Que nós estávamos na verdade é contando com esse fim e com tudo o que ele poderia nos trazer de alívio – um alívio de nós mesmos, em última instância. O que a gente quer é acabar com a dor, mesmo que isso signifique (ou pior, só seja possível com) o nosso fim.

Mas a questão é, como segunda consideração, que nossos tempos são tão covardes – tanto no sentido de “medrosos”, quanto de “desleais” – que uma hecatombe seria uma maneira de acabar com essa dor que vem sendo estar vivo, sem no entanto “puxar efetivamente o gatilho”;  não seríamos “nós”, mas “algo”. Pela boca dos Maias ouvimos o que seria o “canto da sereia” de nossa vontade de morte, de suicídio, sem efetivamente nos matarmos. Mas isso não se concretizou! E agora? Agora é lidar com isso – com a ausência dessa “moral”, dessa “ajudinha” que, seja pelas mãos de Deus(es) ou do Universo,  não chegou – e cada um vai lidar, ao longo da vida, do seu jeito; uns inclusive “puxando o tal gatilho”, o que é uma pena.

Infelizmente a sensação que fica não é de alívio, mas de frustração, me parece. Deveríamos era ter sentido medo e tristeza com a ideia do fim, mas isso só seria possível se vivêssemos uma vida plena, na plenitude da vida. O que não é, definitivamente, o caso. E assim ficamos a meio passo entre a piada sarcástica e o gosto agridoce dessa “derrota”.

Bem, o fato é que nada houve (até o momento da publicação dese texto… *risos*). Nada mesmo? Será que não mesmo? Pois digo que para mim, o mundo já acabou faz tempo, aliás, se bobear nunca existiu. Esse “o mundo”, ordenado, nobre e digno de um fim “institucional”. Se resta alguma dúvida é só pegar um tabloide, ou acessar as notícias populares mais próximas, e passar a vista nas manchetes. Ou procurar observar o que atualmente reside nos olhos das pessoas enquanto elas andam distraídas pelas ruas. Ou porque você gasta mais dinheiro em drogas para não se deprimir do que com sua felicidade.

A verdade é que o mundo não acabou e, uma vez estando eu redondamente enganado com relação ao mundo e as pessoas, é necessário então que façamos algo para que esse “o mundo” que já está acabado,  não acabe conosco de vez, silenciosamente e nos torturando,  dias, meses, anos, séculos a fio.

Boas Festas.

Carta para o Papai Noel

Daqui mesmo, 24 de Dezembro, o ano é o de menos.

Querido Papai Noel,

Eu não gosto do Natal; tenho meus motivos e não os exporei aqui – não interessa a ninguém, isso é um problema só meu e não o importunaria com ele. Mas do que eu não gosto e quero falar nessa carta é exatamente sobre o comportamento da maioria das pessoas nessa data, nessa época do ano. Assim sendo, decidi escrever na minha cartinha – a primeira e única que remeto ao senhor – a lista de presentes que eu realmente gostaria que as pessoas do mundo ganhassem. Se possível, atenda meu desejo.

Em primeiro lugar, àqueles que não são religiosos, gostaria que eles fossem presenteados com um pouco mais de bom senso, pois, durante todo ano são eles aqueles que reclamam de estarem sendo constantemente esculachados pelos coleguinhas religiosos, para agora destilarem todo um repertório de mágoas reprimidas na forma de piadinhas com ou sobre a religião alheia e a tal data comemorativa. Poxa Papai Noel, concordemos: num tempo onde temos discutido tanto sobre a importância do respeito à diversidade – seja ela qual for – fica muito “nada a ver” tanta antirreligiosidade por aí… e tem oura coisa, Já que a turma que fala “não” pra religião e para seus dogmas afirma tão categoricamente que são mais esclarecidos, que são mais livres e tem um senso crítico mais apurado, tava bom então começar a parar de se comportar como um adolescente que tá afim de incomodar a autoridade paterna, no intuito de chamar a tenção do pai. Tudo bem, a analogia foi infame. Desculpe-me Papai Noel.

Já para aqueles que são religiosos, dessas todas religiões que coincidem comemorativamente em alguma coisa qualquer nesse 25 de Dezembro, num sei, “parabéns!” já é um começo. Gostaria de pedir para eles um pouco mais de etiqueta. Apesar de entender que todas as religiões tem um caráter e uma natureza missionária, a vida em sociedade pressupõe que a gente aprende a ouvir “não” e tem que lidar com isso de uma forma tranquila. No fim das contas, dizer “não” para a religião e pra seus dogmas e suas datas comemorativas – seja ela qual for – é um problema que a pessoa que diz, em última instância, vai ter que resolver com é Deus (partindo do princípio de que Ele existe) e não com quem tá ouvindo, num é não? Então Papai Noel, quem chama o amigo não religioso para as celebrações não vai ser punido por Deus, pois fez sua; só tem mesmo é que aprender a falar “tudo bem, então. Qualquer coisa, estou aqui, celebrando…” quando ouvir – de forma igualmente educada, gentil e polida, o “não”.

Aos meus amigos Satanistas eu sou obrigado a pedir de presente um ombro amigo, porque afinal, hoje é o dia em que eles comemoram (oi?) o nascimento de um indivíduo (opa, o tal nascido não é tão individual assim, mas acho que deu pra entender…) que virá a ser o camisa 10 (ou 1…ou 3, não sei) do time que decreta o rebaixamento (tá bom, chega de piada infame) do time deles. Desculpem-me todos os satanistas, mas acho que hoje é dia de luto para vocês. Bom pelo menos é assim que eu vejo as coisas (não sou muito bom de religião), ok, Papai Noel? Não seja preconceituoso e por favor, abrace um Satanista hoje…por mim…

Para aqueles amigos que são religiosos, mas que não tem nada a ver com a data de hoje, bem, quero pedir um presente para eles: tranquilidade. Sabe por que? Porque eles ficam nervosos por serem um minoria em nossa sociedade e como minoria se sentem, às vezes, oprimidos pela falta de etiqueta e bom senso dos já citados acima;  mas acho que eles ficam mais nervosos ainda internamente, quando se sentem tentados a comprar um presentinho, ou a cantar um “Jingle Bells”… Eles merecem relaxar, Papai Noel. Deus é infinitamente bom em qualquer religião e ele não vai se importar se de repente um de seus seguidores participar do amigo oculto da empresa; mas em todas elas eles é também infinitamente justo, então, se essa mesma pessoa começar a desdenhar ou tripudiar da fé alheia, vão cair no mesmo problema de quem não é religioso e aí, uma vez sendo religiosos, dá problema.

Gostaria de pedir um presente adicional, que vale para todo mundo: que todos entendessem que desejar “Feliz Natal” não faz de alguém cristão ou o que quer que seja; apenas demonstra educação e que, independente de sua crença – se é que há alguma – esses votos significam que queremos ver outra(s) pessoa(as) bem e felizes e comemorando. Mas se incomodar demais, que as pessoas digam “Boas Festas”. Que todos aproveitem todas as promoções de compras que lhes derem vontade e que se presenteiem bastante, comam, bebam e pratiquem a caridade. Mas que não esperem as festas de fim de ano para fazerem isso, e sempre que o fizerem, que seja de coração.

Por fim, gostaria de pedir um presente para mim. Por favor Papai Noel, vai embora da minha cabeça, da minha realidade imediata. Não tenho certeza se o senhor existe e eu estou ficando preocupado – e preocupando meus amigos – por estar conversando contigo assim, de forma tão estreita, afirmando tal existência. Mas na dúvida, publicarei a carta. Nada pessoal.

Sou um bom garoto e me comportei bem o ano todo. Agora, bem perto do Natal, eu derramei Coca Cola na sala de jantar da casa da minha mãe e limpei tudo com a toalha da mesa, mas ela já me repreendeu e me desculpou, estamos bem. É só para constar.

Cordialmente,

Pedro.

Sobre Passagens do Tempo

Nos últimos dias tenho pensado muito em como o tempo passa. Posso dizer que, em termos físicos, o tempo é isso que a gente conta, contabiliza, capitaliza nos bolsos e nos relógios.  Pra alguns quanto mais tempo melhor, para outros quanto menos se gastar desse tempo é o que funciona, mas invarialvelmente ele passa pelas horas minutos e segundos de cada dia, de cada mês e de cada ano… novidade nenhuma nisso – isso inclusive não deveria tomar o tempo do pensamento de ninguém.
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Pois então,  não é nesse tempo que tenho prendido tanto minha atenção.  É num outro, aliás, num é nem no tempo, é numa outra coisa – em outras passagens do tempo. É algo próximo àquela sensação de encontrar – ou melhor, de se dar conta –  de seu primeiro cabelo branco. É algo parecido com isso, mas ainda não é bem isso.  Parece também com aquelas coisas que as pessoas dizem quando descobrem por si mesmas que não curtem mais certas coisas, lugares e/ou pessoas que curtia há tempos atrás. Envelhecer é uma passagem do tempo, mas eu estou falando de outras.
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Tenho pensado em como é olhar para sua mãe, ou seu pai, ou outra pessoa afetivamente importante, icônica em sua vida num tempo passado e hoje, de repente, enxergar nela simplesmente um homem ou uma mulher;  que sentem medo, erram e às vezes tem de pedir desculpas. É preciso o tempo passar para que sejamos capazes de nos dar conta dessas minúcias tão óbvias, mas que a urgência de um colo, de um peito, de uma atenção ou de uma rejeição a gente deixa pra lá, desconsidera. Abandonar o medo do escuro, o medo de pegar na mão (ou de largar a mão também) de quem a gente gosta ou o de acompanhar uma outra pessoa num constrangimento necessário requer uma boa dose de passagem do tempo.
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Ainda hoje me lembro como eu me sentia quando pegava a navalha para barbear meu avô que, já completamente cego por conta da diabetes, sentava-se à minha frente e falava de futebol; mas só nesses dias é que eu me dei conta do quanto havia de medo e coragem nisso, para ambos os homens ali. Para o velho e o novo dentro de cada um.
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E esses pensamentos me levaram a outra passagem do tempo: a que nos conduz ao se alegrar ou se entristecer com bobagens. Só uma boa passagem de tempo faz a gente perceber que não precisamos de nada muito apoteótico pra ficarmos tristes ou alegres. Outra coisa: algo apoteótico é raro e a gente só percebe isso quando o tempo passa e não há nada mais apoteótico na vida do que uma saudade verdadeira.
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Provavelmente existem outros lugares, outras passagens do tempo aonde eu ainda não cheguei.  Talvez existam tantas outras que eu nem dê conta de chegar a todas elas. Mas isso não é o importante. O importante é que nesses últimos dias o tempo tem me dito muita coisa e eu resolvi escrever sobre isso.

Eu publiquei esse texto primeiramente no Facebook, porque o servidor daqui estava fora do ar. Agora que (parece que) voltou a funcionar normalmente, republico-o! 😉

 

CRÔNICA DO PRIMEIRO DE ABRIL

 

 

Depois de uma jogatina honesta com uns amigos, cheguei em casa depois da meia-noite de ontem para hoje. Como estava sem sono, resolvi, movido pelo vício, acessar a internet e me deparei com um e-mail totalmente estranho numa das listas que assino, informando a “aposentadoria” de um colega de carteado. De início fiquei chateado, mas aí uma coisa me veio à tona: a data do e-mail. Quarenta e sete minutos do dia primeiro de abril, “dia da mentira”. Para mim, o dia que pode ferrar a sua vida.

 

Não gosto do primeiro de abril. Esse desgosto não é, definitivamente, por conta de uma mudança de calendário em tempos já há muito idos; ela tem outra origem. O dia da mentira pode desencadear uma série de eventos difíceis de lidar e até mesmo impossíveis de serem contornados na vida de uma pessoa. Tudo isso pelo simples fato de que o mundo no qual vivemos é povoado por seres cuja capacidade de discernimento entre a piada de salão e o bullying é mínima, ou mesmo nula, em estados de exceção à uma determinada regra – nós, os humanos. No caso do dia da mentira, a regra é dizer a verdade, ou brincar com a verdade. E aí lembremo-nos da antiga máxima: TODA brincadeira tem, lá no fundo, uma verdade escondida, e o primeiro de abril tende a transformar essa verdade numa coisa lacerante, de difícil absorção. A verdade do rir para não chorar.

 

Em primeiro lugar, porque fica difícil se comunicar nesse dia. É praticamente uma lei da física que “toda notícia séria fica automaticamente jocosa e só volta a ser séria mediante leve constrangimento em primeiro de abril”. Exemplo: “Fulano morreu”. Agora, esse constrangimento pode atingir o nível moderado se a notícia séria for uma brincadeira de primeiro de abril. Prosseguindo com o exemplo acima: um sujeito diz, mentindo,”Fulano morreu” para outro; o outro não se atenta para o fato de que é primeiro de abril e desaba a chorar; Leve constrangimento, constrangimento moderado; Sujeito engraçadinho, já sem graça, diz “Calma, calma… é primeiro de abril…êêê…”.

 

Com base nessa “lei”, podemos pensar outra coisa. Existem certas frases que deveriam ser completamente vetadas no que se refere a virem acompanhadas da exclamação “Primeiro de abril (êêêêêê)!”. Por exemplo, “Estou grávida.”. E por que? Não pela piada, definitivamente, mas sim porque de repente, você, mulher em idade fértil e sexualmente ativa, pode escutar de seu parceiro algo do tipo “E aí, você já contou para o pai?” Esse é o tipo da brincadeira que dá problema. Qualquer resposta que a fulana der para a pergunta de seu parceiro vai gerar um certo “barulho”. Se ela fala que está contando agora, ela pensa “o que ele quis dizer com essa pergunta? Ele está sugerindo que eu não lhe sou fiel, ou que eu não transpareço confiança?”. Agora, se ela responde “Ainda não, você me ajuda?” Ele pensa “o que será que ela quis dizer com essa pergunta? Não que ela esteja me traindo, mas será que ela anda ‘olhando para o lado’ por aí?”! Como eu disse, “barulho” e algumas discussões para além do primeiro de abril.

 

Mas “Estou grávida.”, nessas condições, ainda é leve. Tem uma frase pior: “Eu te amo.”. A pessoa que diz que ama outra e logo depois emenda o bordão “Primeiro de abril (êêêêêê)!”, para mim, já fez por merecer uma surra, mesmo antes de qualquer resposta. Mas o castigo pode ultrapassar a fronteira do corpo e se estender por várias áreas da vida do engraçadinho, por exemplo se a resposta for “Eu também te amo.” acompanhada de um rosto de consternação, constrangimento e vergonha por parte da outra pessoa, sucedida de um expressão de frescor e alívio após a revelação da brincadeira. E aí? Precisa traduzir a cena? É o tipo da coisa que, se acontece de um cara para uma mulher, é melhor ele colocar as barbas de molho se ela fizer a brincadeira do “Estou grávida!”… Mas pode piorar. Como a comunicação entre nós e os sentimentos alheios é geralmente um amontoado de mensagens que enviamos a um receptor quebrado, o que mais acontece, é se fazer essa brincadeira sacana e perversa com alguém que ama o engraçadinho, mas ele, obviamente, não sabe disso! Essa é outra cena que não carece de tradução, até mesmo porque nossa imaginação se preocupa nesse caso em tratar com mais crueldade o desenrolar da cena, as consequências dessa presepada, e então a gente ri. E só faz isso porque não foi nem comigo, nem com você (seja como sujeito ou como objeto da “brincadeira” – porque é ruim de qualquer forma), e nessa hora a gente morre de medo. Como eu disse, o dia da mentira é o dia que pode ferrar sua vida.

 

Mas esse dia pode ser ainda pior. Nos dois exemplos acima acontece que você se estrepa num primeiro de abril, aprende lição e não participa nunca mais dessa falta de juízo. Agora, imagina se você nasceu no dia da mentira. Primeiro o trabalho que deu para fazer o mundo acreditar que você nasceu (isso entra no rol das notícias sérias que viram piada e que só voltam a serem sérias depois de um leve constrangimento). Depois, imagina o sofrimento de você criança, em todas as suas festas de aniversário enquanto criança, ouvindo que não vai ter festa, ou que não vai ter bolo, ou que ninguém trouxe presente?! Que tipo de adolescente você se tornaria? Suponhamos que na natural revolta dos tempos juvenis, você optasse por não mais celebrar com parentes e resolvesse “cantar o parabéns” só entre amigos. Você acha mesmo que outros adolescentes iriam perder a oportunidade de te sacanear? Depois de anos sendo sacaneado por sua própria estirpe? Mais fácil você marcar uma festa e não fazer nada, só mandar um recadinho pra todo mundo escrito “Primeiro de abril (êêêêêê)!”… e aí todo mundo se sente ferido no ego, não te sacaneia mais, mas também deixa de ser seu amigo e passa a te olhar como um cara a ser vencido. Resultado: um longo período de bullying trocado – que deveria não doer, mais dói. E aí então fica você sem festa de aniversário e sem amigos.

 

Diante disso, que tipo de sentimento você alimentaria por sua família, aliás pela pessoas? A pergunta é: que chance você teria em se tornar um ser humano psicologicamente saudável se nascesse em primeiro de abril? Pois é, tem gente que nasce. Tem um monte nascendo agora. O dia da mentira torna o mundo um lugar pior (e de repente, até mais perigoso, vai saber, não é mesmo?).

 

É por esses e por outros tantos motivos que eu resolvi escrever essa crônica em tom de manifesto. A ideia sempre foi, desde o começo chamar a sua atenção durante alguns minutos e fazer você perder tempo com todo esse drama, no intuito de te fazer acreditar que eu não me divirto no dia de hoje e que não ia pegar você no primeiro de abril. Só que eu acredito tê-o feito com o mínimo de decoro. “Primeiro de abril (êêêêêê)!”

 

Pedro Pizelli

 

Amarelo

Estava o homem que morria de medo de voar a conversar com um amigo, à beira-mar. Lá pelas tantas do dia,  surgiu para eles a oportunidade de participarem de um passeio de barco, onde do pacote fazia parte também um mergulho a uma certa profundidade. A princípio o amigo relutou, mas fora enfim converncido pelo homem que, animado com o passeio,  já tratava de colocar em si todo o equipamento de mergulho.

Passearam então a bordo de uma escuna até uma região mais afastada da praia, onde o tal mergulho seria realizado. Uma vez checadas as normas de segurança, caíram instrutores, guias e todos os outros na água – menos o amigo.  Relutante, ele sentou-se na borda da embarcação e, ansioso, chamou a atenção do homem com um gesto, que não lhe respondeu, pois não vira. Prontamente um dos instrutores tratou de dar-lhe logo um aceno, convidando-o para a água apontando uma bóia. Agora com sua atenção desperta no sentido do amigo, o homem logo tratou de colocar-se ao lado da bóia e sorriu-lhe.

E assim seguiu o passeio. O amigo agarrado à bóia, o homem ao lado do amigo e o instrutor lá, meio que sem entender, entendendo tudo. No fim do passeio, o homem sentiu cãimbras e saiu da água. Voltando ao barco, pôde ver o amigo e sua bóia separarem-se finalmente – gesto de coragem que fora reconpensado com a observação de um peixe amarelo belíssimo e raro.  Voltaram todos, emfim para a escuna e dela para a praia. O resto do dia transcorreu bem.

À noite, antes de dormir, conversaram os dois sobre o dia e então, questionado sobre o acontecido na praia (o passeio de barco com o mergulho), o amigo respondeu com veemência: “Não sei nadar, camarada! Por isso fiquei agarrado à bóia. Tive medo. Nunca mais faço mergulho de novo…” “Mas você pôde, com ajuda do instrutor, mesmo que por alguns instantes, largar mão da bóia, megulhar e ver o peixe lá, num foi? E aí você viu o quanto é ruim e desconfortável ficar agarrado à uma bóia morrendo de medo? E sem a bóia é livre, não é? Outra coisa, sem medo..?”, replicou o homem. “É foi sim…”. “Pois então agora você entende porque eu não gosto de avião!”, finalizou o homem, sorrindo.

Foram dormir e nessa noite o homem sonhou com um peixe amarelo voando no céu. Sem bóia, nem nada.