Esse capítulo tava guardado há pelo menos uns dois anos.

Em Marechal Olívio vive Dolores, e ela é a “Louca da Cidade”. Dizem que ela ficou assim porque “matara” o pai, Seu Vladimir, que dela abusava quando mais nova. Foi-se o desgraçado para os Infernos de ataque cardíaco num desses momentos em que violentava a jovem Lola.

Ela, que sempre fora muito bonita quando jovem, hoje é uma mulher castigada pelo tempo, pela insanidade, pela vida. Quase não fala e quando o faz na maior parte das vezes é para chamar pela mãe, que morrera antes do pai. É dependente da caridade alheia, da Previdência Social e o Serviço de Saúde da Cidade. Não tem mais ninguém.

Dizem que Dolores não é violenta, portanto, deixam-na circular pela cidade. Mas a única coisa que ela faz é ficar durante todo o dia sentada na praça em frente ao sanatório, vestida como se vestia enquanto mais nova – vestido estampado, sapatinho “tipo de boneca”, meia três quartos; cabelo até os ombros, partido ao meio e trançado. E dessa indumentária ela não abre mão. Às vezes ela chora um choro muito sentido – novamente quando a lembrança da mãe vem à tona. Mas quando falam o nome do pai – seja para ela ou mesmo perto dela – D. Dolores sorri.

Sorri e se começa a se insinuar, para toda e qualquer pessoa, livremente, contagiando o ar da cidade com sua insanidade transformada em lascívia – cena essa de uma crueza e de uma crueldade chocantes. Depois, volta para seu universo onde alterna lágrimas e apatia. Age assim como se fizesse algo para matar novamente ou (manter bem mortas) as monstruosas e tristes memórias de juventude. Ou talvez para celebrar sua vitória. Ou por loucura somente. Vai saber…

Como todos sabem, Marechal Olívio não tem um, mas sim dois times de futebol. O mais antigo é o XV de Marechal Olívio que será melhor documentado posteriormente. O segundo, mas recente, é a Ferroviária Olivariana – mais conhecido como “Avante” e sua história de sua fundação é muito interessante.

Na década de 60, a cidade passou por um surto tardio de desenvolvimentismo que culminou com a chegada das estradas asfaltadas e o paulatino abandono do uso da linha férrea no caminho até a Capital. Com isso, as instalações antes utilizadas pela Companhia Administradora dos Trens foram igualmente deixadas de lado e uma dessas instalações era a área de manobra da composição principal, próxima à casinha do fiscal de linha e as instalações sanitárias dos funcionários.

Nessa época, Augusto Comte era o responsável pela manutenção da propriedade da empresa. Ex-maquinista, conseguiu estudar e arranjou uma colocação como responsável pelo trecho “Capital-Marechal Olívio”.  Sempre que dava a partida numa nova viagem, Comte gritava “Avante!” ao sentir os primeiros movimentos da máquina. Quando perguntado do porquê disso, sempre respondia que era por conta da ideia de progresso que sempre via numa partida de trem. “Sempre em frente, com ordem, amor e progresso”, era a frase. O amor, obviamente era o amor à profissão – essa coisa para ele linda, que era levar pessoas, nesse gigante tecnológico do século XIX. E quando se deu conta da certeza da “morte” do objeto de seu amor, tratou logo de transformá-lo, de mantê-lo de alguma forma funcionando.

E foi assim que Augusto Comte pediu à Companhia Administradora que, no período de desativação do trecho da linha férrea, pudesse ficar ali na área de manobra junto à casinha do fiscal e dos banheiros, treinar um time amador de futebol que levaria o nema de “Ferroviária”. No início a equipe era composta pelo quadro de recém desempregados da Companhia, que antes de se tornarem jogadores, foram jardineiros, pedreiros (na transformação das instalações em vestiário) e marceneiros das primeiras arquibancadas. Mas com o passar do tempo o time evoluiu e se tornou uma potência do futebol local, chegando inclusive a ser patrocinado pela própria Companhia Administradora dos Trens. O “Campo da Linha” (como ficara conhecido, depois de arrendado junto a empresa) lotava para ver o “Time do Avante”. E desse apelido surgiu o grito de guerra que arrasta multidões até hoje.

Só publicando novamente…

Essa é uma parada que eu tô escrevendo devagar. Revisão do texto de meu amigo e crítico Léo Goulart (de quem eu ouvi que esse texto, esse projeto, é algo onde “não há nenhum lirismo, só gente mesmo.” 🙂

Life framings I:

– How can you be so cynical? You are just pretending.

– You’re tellin’ me this, wishin’ or believin’ you can help me?

– Both, indeed.

– Well, it’s ok to you we leave this place now and spend a weekend in a motel room and drinking, talkin’ about nothing while I write in and on your body at the same time we fuck?

– Yes…

– So come back in ten years and if you look me in the eye with this same glance, this same wet scent, we’ll retake this conversation.

– In ten years you’ll be dead if you don’t get out with me right now.

(He smiles)

– I’m a mistake. And it seems you’re perfect, which makes me… suitable by your side, because this turns you into a human.

(She smiles. The couple goes in silence, holding hands).

 

A Raposa mora em Marechal Olívio. Não numa casa, mas numa toca no meio do mato, num parque ecológico nos arredores da cidade. Depois dos últimos eventos vividos à beira da macieira e perto do roseiral –  onde era sua antiga morada – ela resolveu se mudar. Os campos de trigo lhe traziam lembranças tristes…

Agora ela não vive mais sozinha. Arrumou alguém, numa dessas saídas para caçar galinhas. É tratada com carinho e respeito e hoje em dia leva uma vida boa; nem se expõe mais aos caçadores! Tem meio que de tudo ali ao alcance da mão e envelhece com dignidade.

Mas ás vezes enche a cara de Martini e fica olhando pro céu pensando que poderia ter pegado mais leve com aquele Príncipe… ou que poderia tê-lo demovido de voltar praquela biscate da Rosa e que assim ficariam juntos. Às vezes ela se lembra do essencial e compreende que a máxima do “invisível aos olhos” vale para tudo, inclusive para a saudade. A saudade é uma coisa essencial… e assim como todas as outras coisas essenciais, com o tempo e os ritos, a coisa só fica mais e mais forte, mais e mais intensa.

“Como gostaria que você estivesse aqui agora, seu Loirinho filha da puta.”, resmunga baixinho a Raposa, quando fica bêbada.

Dá dó de ver. Se alguém tiver notícia do Príncipe, fala pra ele mandar notícias, de repente até fazer uma visita.

Padre Juan é o pároco de Marechal Olívio e dizem que ele é o padre mais bonito do mundo. Mas nem sempre foi assim. Quando chegou na cidade, há muito tempo atrás, ele era só “o espanhol” mesmo. Dizem que ele veio da Espanha fugido, acusado do assassinato do próprio pai. Outros dizem que foi por ter prometido casamento a uma moça e, depois de ter “tirado proveito da inocência” da mesma, abandonou-a “desonrada”. Nesse caso, fugira para não ter que lidar com as consequências de seus atos – e com a ira da família da moça.

O fato é que ao chegar em Marechal Olívio, sendo o fugitivo que fosse (e era), causou um furor enorme. Jovem e muito bonito, o estrangeiro conquistou em pouco tempo os sorrisos femininos e os olhos envenenados masculinos. durante três anos não houveram casamentos na cidade. Vários terminaram. Namoros e outros compromissos se desmanchavam como torrões de açúcar em boca molhada. E o homem lá, no meio disso tudo, tentando agora  fugir é de mais confusão…

Até um certo dia em que uma espécie de santeiro passou pela cidade. Expondo seu artesanato na praça, calhou ao mesmo oferecer a Juan uma pequena estátua, pagã, de pedra.

“¿Dónde encontró esta estatua, hombre?”, disse Juan aterrorizado.

“Eu que fiz moço. sonhei com ela e fiz…”, respondeu o artesão.

“Sueño… ¿Qué sueño? Háblame del sueño!”, vociferava o rapaz, com os olhos injetados de uma mistura de terror e raiva.

“Olhe, moço, sonhei com esse rosto, de pedra, e uma mão arrastando um homem pra uma fogueira muito grande. Aí vinha a Virgem Maria e falava pra mão soltar o homem, que ele agora pertencia a Jesus. Aí acordei… vai comprar a imagem ou não?”.

Juan comprou a estatueta, foi para casa, juntou suas coisas e partiu com o “santeiro”. Segundo ele próprio relatou mais tarde, ao chegar na capital procurou a Santa Sé e se inscreveu na Obra de Deus. Anos depois, ordenado padre, pediu para ser alocado em Marechal Olívio assim que possível. Com o desaparecimento de Padre Sid (esta história contarei noutra oportunidade), Juan assumiu a paróquia e assim as coisas estão até hoje.

E essa é a história do padre Juan, homem de sacra beleza a serviço de Deus, em Marechal Olívio.

Diálogo na Farmácia Central, em Marechal Olívio:

“Bom dia.”

“Bom dia, senhor… pois não?”

“Então, acabei de me casar novamente e agrora estou aqui. Agora estou aqui a comprar ‘azulzinho’ e remédio pra angina. Você tem ‘o remédio tal’?

“Tem sim. O total dá $132,99, senhor.”

“Ok, aceita cartão de débito?”

“Sim, sim.”

“Aqui está.”

“Mais alguma coisa, senhor?”

“Sim, tem mais uma coisa: Amar é correr contra o tempo. Como tudo na nossa vida, pensamentos, sensações, sentimentos, chegam até nós na forma de um complexo emaranhado de ações e reações de natureza química. E dada a natureza fantástica de nosso organismo, temos a capacidade ímpar de nos tornarmos mais e mais resistentes, resistentes não, resilientes a praticamente todas essas reações, ou seja, com o tempo, fica orgânico pensar e sentir. Nos viciamos assim, em viver.
E quanto mais nos expomos a uma (ou mais de uma) dessas combinações químicas, passamos vagarosa e silenciosamente, a precisar de doses cada vez mais altas para que vivamos satisfeitos. Voos cada vez mais altos, pensamentos mais profundos, sentimentos mais intensos… e assim o é com o amor, meu caro. Quando um amor acaba, se desfaz nos metabolismos, o próximo precisa ser maior, mais forte e mais duradouro. Porque como toda dependência, a falta de amor é uma doença terrível – que enlouquece, nos despessoaliza e nos mata. É a pior de todas as abstinências.
Por isso, precisamos de um amor ‘para a vida inteira’. É necessário para sermos plenamente felizes que recebamos uma dose de amor tão grande, tão absurdamente poderosa, que nos permita morrer antes que a ‘viagem’ passe. E por isso só vale a pena e só é possível se entregar a um amor se, e somente se, o fazemos como se fosse a última dose – a definitiva – mesmo que não seja de fato. E assim de novo e de novo… até que acertemos; até o fim.”

– silêncio –

“O senhor faz isso de sacanagem, né Seu Honório? Casado com uma jovem (ele pensou ‘gostosa’, mas falou ‘jovem’) 30 anos mais nova que o senhor e aí recalmando da vida… quem dera fosse eu numa dessas..!”

“Acho que você está começando a entender, meu filho; a ideia é essa. Tchau, bom dia.”

“É, bom dia…”

– resmungando, diz Cesário, o balconista –

“Velho doido do caralho. O que ela viu nele? Ah, se fosse eu…”

“Olha, mãe, não fiz nada mesmo. Fazer pra errar não me liberaria da responsabilidade que tenho acerca da inexorável escolha de me dar mal na prova – assim como da outra escolha que fizera antes, a de não estudar para a mesma. Mas, o que é o fracasso, enfim, se não nós mesmos num confronto com as escolhas dos outros, esse inferno compulsório, mas belo?”

“Hum, sei… agora a professora é que tava de marcação com você, e por isso o zero… Tudo bem! A mim você convence direitinho, filhote… quero ver é se seu pai voltar do tal garimpo pra onde ele diz que foi e voce tiver que explicar que foi reprovado de novo por conta desse maldito vídeo game.”

“Ah, não, mãe…”

“Ah, sim…”

“Mãe..?”

“Oi…”

“A senhora sabe que o pai não volta, né? Se bobear, ele nem ta vivo, nem existe…”

“É… eu sei… homem não presta mesmo. Só você, filhote, só você…porque eu te crio direito.”

Trecho da conversa entre João Paulo, 11 anos, e sua mãe Simone, no caminho de volta pra casa vindo da escola, a E.E. Heráclito Moreira Paiva, na cidade de Marechal Olívio.

“Certa vez eu tive uma semana que simplesmente passou. Não foi dura, nem tranquila; sem desgastes, sem nada. E esse foi o tempo em que me senti mais sozinho em toda minha vida. Os seres humanos são – por si e pelos outros – agentes, vetores e resultados de constantes tensões, fricções e, eventualmente, quedas livres. A vida ávida.

Sozinhos, nós somos nós num deserto feito de areia que é todo esse frenesi, são todas as emoções do mundo. E tem gente que segura um punhadinho dessa areia na mão e acha que isso lhe pertence. A mesma gente que sofre vendo essa areia voltar pro seu lugar, enquanto se esvai entre os dedos. É gente que não vê que o quanto ela mesma é o deserto. Dessa areia só fica mesmo a que quer ficar. A que as tempestades e os ventos leves colocam nas ranhuras dos nossos rostos, entre os cabelos, nos nossos bolsos e dentro de nós. O todo – nesse caso, o resto – é inóspita paisagem, miragem; é o que te mata de sede e de fome, de calor e de frio e onde as víboras e os escorpiões moram.

Juntos, somos oásis. Nem sempre de água boa para o que carecemos naquela hora. Às vezes um rio de onde se erguerá uma civilização.

Fora isso, achei que foi impedimento, mas segui com o lance. Quem dá o gol é o juiz.”

Assim falou Zaratustra, ponta esquerda do XV de Marechal Olívio, em entrevista para a rádio local, após a partida de domingo.

Tudo começara mais ou menos aos catorze anos, quando esse sonho apareceu a ele pela primeira vez. Era um sonho com gosto e cheiro animal; muitos simbolismos – os quais a maioria, mais tarde, ele próprio faria questão de atribuir-lhes novos sentidos de forma bem particular. Em alguns momentos sua mãe aparecia no sonho. De forma automática, na medida em que outras mulheres começaram a passar por sua vida, foram as imagens delas sendo agregadas ao sonho original a partir desse ponto – o “ponto da mãe” – em diante. Acordava sempre mergulhado num misto de satisfação e nojo toda vez que sonhava esse sonho.

Para a  sociedade era uma pessoa sem  cor. Tinha tornado-se extremamente tímido (em certa parte por conta desse maldito sonho) e agora, alguns anos mais velho, sentia que algo em sua vida havia passado e ele ficara pra trás, dentro de seus devaneios. Dentro de sua cabeça, martelava-lhe, além do sonho, uma vontade gigantesca de extravasar, de externalizar tudo o que entendia como amor, dedicação. Foi quando se apaixonou pela novata que viera lhe servir café na lanchonete que frequentava. Ele passou meses a observá-la. Trocaram de forma tímida algumas palavras e, para se preservar, mentira sobre si mesmo. Descobrira algumas coisas sobre a vida dela e, certa noite, a abordou na rua de forma cortez. Ele tinha certeza que era o certo a fazer. A convidou educadamente para uma conversa em local mais íntimo, mas logo que encontraram-se sozinhos, desferiu sobre ela um golpe que automaticamente a fizera desfalecer.

Quando ela acordou, estava deitada em uma mesa, amordaçada e nua, com o braço  esquerdo amarrado às costas como um travesseiro no pescoço e o outro preso ao corpo com a mão livre junto às partes íntimas. À sua frente estava ele, depoistitando um cândido olhar sobre ela, com uma faca na mão. Também não resistiu ao corte longitudinal que lhe fizera na lateral desprotegida, por onde ele prentedia penetrá-la, espalhando seu sêmen junto ao coração de sua amada. E assim, dentre outras coisas, ele sentiu que dormiria bem. Acreditava que seu sonho ganhara uma materialidade tranquilizadora…

Contudo, antes de se livrar daquele inerte templo outrora vivo, presente e aberto em oração, ele se deu conta de algo que o impleiria a procurar se satisfazer, daquela forma, novamente: ele podia jurar que havia visto ela se tocar antes de morrer.

SOUNDTRACK PARA A LEITURA DESSE CONTO: “Desejo Louco”, de Fernando Mendes.  Abraço!

Oceans

“É muito estranho como o ar daqui é diferente.”, Ella pensava, deitada – barriga para cima, pernas esticadas, olhar vazio. Ella sempre gostara do mar e de cidades costeiras mas só agora, aos vinte, que finalmente coneguira se mudar para uma. Três meses haviam se passado desde então e Ella ainda estranhava o cheiro da cidade, o cheiro de mar. Desde que se mudara, tantas coisas já haviam acontecido, mas dessas todas coisas nenhuma tivera tanta importância quanto poder sair pela cidade e deparar-se com o oceano. Os dias, as madrugadas, as tardes e tudo o mais ficara mais bonito à beira-mar para Ella.

Depois de se estabelecer na cidade, Ella até se propôs a teorizar, de forma simples, despretenciosa – e muito particular – sobre todos os porquês de tamanho fascínio. Leu algumas coisas, conversou com várias pessoas e, num dessas, concluiu que “O Oceano são muitos; depende de como vamos até ele e ele a nós”. Essa frase não saía mais de sua boca, muito menos de sua cabeça. Assim sendo, Ella estabeleceu para si que, uma vez por semana ela teria seu dia de mar. E cada dia seria diferente. Era essa a proposta.

E fora num dia desses de mar que Ella conheceu o amor. Mas não um amor trivial, do tipo que as ondas levam embora. Era muito mais que carne e sexo e falatório, ao contrário – era um prazer silencioso, passivo, mas de um intensidade avasaladora. E chamava-se Heroína. Ella sabia que para sustentar seu amor precisava continuar sua vida, trabalhar, mas como toda pessoa que ama, Ella carecia de mais e mais atenção, de cada vez mais uma dose a mais…de amor. E lá foi Ella. Sozinha com seu amor, para seus dois amores, pro seu dia de mar.

Quando a retiraram da água, ninguém percebeu, mas Ella estava não só molhada pela água do mar. Ella só ouvia o barulho das ondas, em sua cabeça, pedindo que ela sobrevivesse, que ela não fosse embora. E Ella morreu sonhando com o dia em que novamente seria possuida pelo mar.