Breves consideracoes sobre esterilidade forçada ou quando a Lira te fode.

Todos os dias eu penso em escrever algo

Mas seus fins-recomeços são óbvias constatações de minhas mãos vazias.
Nada.
São tantas as considerações de meus caminhos mancos
E tantas contas, e ressacas e gentes e sei lá mais o quê,
E eu sou só um, praticamente um só num universo
De coisas que são minhas a partir, mediante e através de mim,
E de todas elas – as coisas – mais são as que mais me despossuem
Do que é meu, de fato.
O lance é que se não estou escrevendo-escrevendo,
Em algum outro lugar estão lá as palavras, os versos.
Onde então?
Estão?
Quem me enconta nos meus gestos vê que não me caibo
E por isso, inscrevo, marco o que vem pela frente
Na falta de tempo e papéis,
E fica tudo aí, vivido.

Vivo. Lido.

 

Cantiga de Maldizer

E quando te viram a cara – um tapa
Com as costas das pálpebras
Que chicoteiam o chão,
Enquanto os olhares se perdem
Nas próprias egocidades?

Como se fugissem do fogo
Os insetos rasteiros, estes,
De pensamentos rasteiros
Que quando sonham, peçonham
A desejar pesadelos.

Acordados usam máscaras
Até esquecerem os rostos;
Irreconhecíveis em si mesmos.

Desumanidades cotidianas
Intensas massas sombrias
Covardes assombrações.